O Invasor (Beto Brant, 2001)

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O Invasor (Beto Brant, 2001)

Mensagem por rubysun em Qua Set 05, 2012 8:53 pm

Enfim, fazia tempo que eu não dava uma dessas. Mas é que esse filme eu vi e mexeu pra porra, tinha que registrar alguma coisa. Enfim, tá aí!



Segunda-feira agora, 03/09/2012, pegou fogo na favela do Piolho, indicada no mapa com o número #3. A favela do Piolho fica na beira da Avenida Jornalista Roberto Marinho, antiga Águas Espraiadas, na região do Brooklin em São Paulo.

O Brooklin é uma região que segue mudando faz um tempo. Antigamente era considerado numa zona sul até que afastada, e hoje nem tanto (e em algumas denominações da cidade a prefeitura até chama de Zona Oeste, mas é outra história). Nos anos 70 começaram a construir a Avenida Eng. Luís Carlos Berrini, que de um brejo que alagava virou um perfeito pra construir prédio. Hoje talvez a maior concentração de arranha céus, da cidade está por lá. De empresa pequena, média, grande, multinacional, e o escambau. Eu, por exemplo, trabalho por lá.

Nas Águas Espraiadas a coisa era mais forte. Nos anos 80 e 90, na beirada do córrego que tem no meio da avenida tinha barraco pra tudo quanto é lado. Nessas favelas, nasceu e cresceu Sabotage, o rapper que participa do filme como ator e consultor. As músicas dele falam direto da vida por ali (como a #2, a Conde, a #4 do Pontilhão da Espraiada, ou a #6 a região que desce o córrego até a Rua Alba. A favela do Canão, de onde ele nasceu e cresceu e mais rimou sobre, não consigo descobrir onde fica, o que me leva a crer que já tenha sido varrida do mapa.).

No lugar indicado como número #1 era a favela do Jardim Edite, na esquina da Berrini com a Av. Roberto Marinho, no lugar onde hoje tem a ponte Estaiada, do lado de onde hoje é o estúdio da Globo. A entrada dela pela avenida é cenário do filme, em uma das cenas mais tensas (foto abaixo).



Nas épocas da inauguração da ponte (2008) a favela sofreu alguns incêndios. Na imagem do Google Maps ainda aparece a favela. Hoje, o lugar onde ela fica, está assim (a foto é de hoje, 05/09/2012). Foi, pouco a pouco, sendo varrida, assim como o que tava no meio da construção das duas avenidas, da Berrini nos anos 70, e na própria Águas Espraiadas no começo dos anos 90 pelo grande Malufão.





A primeira foto é a visão da Berrini pro lugar que ficava a favela do Jardim Edite que tá na imagem do filme. A segunda foto foi quando eu passei cruzando (dirigindo e torto), mas seria uma visão de frente, visto pelo mesmo ângulo que o filme está (com a ponte Estaiada de fundo e a construção que estão fazendo na ex-favela).
Eu posso tá brisando muito, mas é porque o tema me interessa bastante, e o filme levanta isso pra mim direto. Parece muita coincidência a participação do Sabotage. O Sabotage cresceu nas favelas da avenida, se envolveu com o tráfico logo cedo (chegou a ir pra FEBEM), e saiu do Brooklin para ser gerente de uma biqueira em Interlagos (a pelo menos, 10km dali). Começou uma guerra com a biqueira vizinha e resolveu ir embora pra favela do Boqueirão (no lado oposto da Zona Sul, perto da entrada pra região do ABC). Ele sempre fez rap, mas aí então começou a fazer sucesso e foi saindo do tráfico. Mas até aí, foi mais complicado, porque os acertos de contas nunca pararam, até que em um deles ele tomou três tiros pelas costas e foi-se. Morreu em 2003, depois de ter participado de O Invasor (2001), Carandiru (2003) e ter lançado o disco O Rap É Compromisso em 2000. Depois da morte dele, o processo de varrimento das favelas do Brooklin continuou e a região se consolidou como polo de business e engravatados.

Coincidência ou não, os trambiqueiros maiores do filme são engenheiros, sócios de uma construtora que vai levantando um prédio atrás do outro na cidade sem se importar com as maracutaias que tenham que fazer. Assim como Malufão fazia bem parecido.

Sabotage tem uma cena relâmpago no filme. Mais importante que essa participação como ator é o trabalho como consultor. O Anísio, personagem de Paulo Miklos (fazendo perfeito o papel de O NÓIA hahaha) e o Invasor do título, tem o espírito do Sabotage. Várias falas dele vêm de jargões que o rapper popularizou. Sua moral vem muito do espírito do gueto. De quem vê uma São Paulo sem moral nenhuma. E mesmo assim, vai tentando correr pelo que acha certo. Não é vaidade nem nada, nem apologia pra bandidagem. É de simplesmente alguém que vê a cidade com uma margem absurda, e vai fazendo o que achar melhor.

Sou um poeta do caos e o que tenho dou. Na favela, quando acreditam em você é pra sempre. A periferia não gosta de ser traída.” – Sabotage.

Não é questão de pena, nem de coitadismo por miséria ou caralho a quatro. É o caos que a gente vê todo dia andando na cidade, é o caos ao cubo. Onde 25 milhões de pessoas agem diferente, cada um de jeito numa completa zona, tentando correr pelo certo.

Talvez eu pense que seja um filme muito paulistano, e é de fato. Qualquer um reconhece alguns lugares, se identificam com as situações. Acho que todos os personagens tenham um pouco em cada pedacinho da cidade. Gente que quer crescer, gente que quer aproveitar do jeito que quer, gente que quer poder, gente que tem medo, gente que quer aparecer, gente que não quer sumir na metrópole e tenta aproveitar o caos que aparece na frente. O filme é a própria espiral do caos. Do esgoto que invade a salinha com ar condicionado, que eles tentam varrer de qualquer jeito e não conseguem e aí acaba fazendo parte. Até porque foram eles que criaram, e dependem dela. E aí é difícil lidar com essas consequências.

Eu mesmo fui assistir o filme muito por causa de curtir pra caralho o som do Sabotage. Passo de vez em quando pela ponte Estaiada (que virou cartão postal da cidade) desço pelas espraiadas, avenida em obra infinita; passo direto na frente da favela do Boqueirão quando volto do ABC, de vez em quando passo pela Ricardo Jafet e Abraão de Moraes, que foi onde ele foi assassinado. Aliás é até curioso. Na frente do Boqueirão tem um monte de carros abandonados, roubados, estourados, tudo a céu aberto. Não sei se tem alguma ligação com a Av. Ricardo Jafet, logo ali do lado, ter um monte loja de peças soltas, desmanche de carro (inclusive já tive que comprar peças lá, by the way). Em outras músicas ele falo do “Mano Anísio”, o personagem que ele criou. Mas não sabia que ia ficar tão mexido com o filme, que ia ser tão real com a loucura que a gente passa nessa cidade todo dia, que todo mundo odeia e ama, depende dela e que se sente impotente pra fugir, ser correto com o caos dela.



***

PS: que merda é colocar imagem nessa piroca.
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