Paixão Índia

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Paixão Índia

Mensagem por Valdeci C. de Souza em Qui Jun 28, 2012 10:30 am

Provavelmente você já leu um conto de fadas do tipo “mocinha pobre e ingênua se transforma em uma linda princesa ao casar-se com um príncipe encantado podre de rico” afinal, existem inúmeros livros com histórias como estas. Quem já leu Cinderela, Rapunzel e Branca de Neve, só pra citar alguns, sabem do que estou falando. Quando a realidade imita a ficção este fato parece mais fantástico ainda e por esta razão tornam-se conhecidas mundo a fora. Javier Moro é um apaixonado pela cultura indiana e pesquisou durante muito tempo a história verídica da princesa de Kapurthala e resolveu contar este romance (que mais parece um verdadeiro conto de Mil e Uma Noites) no livro Paixão Índia. Esta união de duas décadas entre a bailarina espanhola Anita Delgado e o Marajá Sing Jagtji de Kapurthala encaixa-se perfeitamente nestas histórias fantásticas de amores impossíveis.

Ana Delgado Briones, também conhecida como Anita Delgado nasceu em Málaga (Espanha) em 8 de Fevereiro de 1890. Entre os 16 e 17 anos de idade trabalhou como dançarina num café concerto em Madri em companhia da sua irmã Victória. O lugar era frequentado por artistas, intelectuais e pintores, entre eles Júlio Romero de Torres e Ricardo Borja. Com a proximidade do casamento de Alfonso XIII com Vitória Eugenia de Battenberg a cidade se prepara para a grande festa com a chegada de ilustres convidados para as bodas do casal real. Entre reis, rainhas, príncipes, chefes de estados e magnatas que chegam a Madri para o grande evento esta o Marajá Farzand-i-Dilband Rasikh-al-Iqtidad-i-Daulat-i-Inglishia, Raja-i Rajagan mais conhecido como Singh Jagatji que tinha uma fortuna tão grande quanto seu nome. Na semana que antecedeu ao casamento o Marajá frequentou o tal café concerto e caiu de amores por Anita e, por diversas vezes, tentou aproximar-se da jovem bailarina sem sucesso. Mandava-lhe flores e presentes e sempre estava junto ao palco para assistir a apresentação das irmãs bailarinas.

Ángel Delgado e sua esposa Candelária Briones não saiam de perto das filhas para não permitir que estranhos e conquistadores baratos se aproximassem. Tinham uma forte noção de honra e respeito às tradições familiares e de forma alguma deixavam as filhas aproximarem-se dos freqüentadores do lugar. Ao fim do espetáculo, levava-as diretamente para casa. Ao perceber que precisa primeiramente conquistar a confiança dos pais de Anita o Marajá, dezoito anos mais velho que a dançarina, trata de convencer Dona Candelária de suas “reais” intenções no que é então permitido que se aproxime. Este encontro mudaria para sempre os destinos da jovem e seu príncipe encantado. Entre flores e presentes chega o momento de Sing Jagatji retornar para seu reino e pede a jovem em casamento. Anita semi-analfabeta escreve uma carta repleta de erros gramaticais e ortográficos ao marajá, mas a correspondência é interceptada por seus amigos Romero e Borja que a reescrevem agora com estilo e graça aceitando o pedido de casamento. Pedido aceito Anita é enviada para Paris para tornar-se uma dama e aprender o ofício de ser uma princesa. Em Paris toma aulas de etiquetas, bons modos à mesa, além de aulas de Francês e Inglês e toma um verdadeiro “banho de loja” na compra de vestidos e jóias nas boutiques mais chiquérrimas da cidade luz. Em Madri deixa Anselmo Nieto um pintor apaixonado que depois a segue em Paris na tentativa de evitar a união com o Marajá indiano. Ao término dos seus estudos para tornar-se uma verdadeira princesa encontra-se com seu pretendente em um luxuoso hotel parisiense e o inevitável acontece: Uma verdadeira noite de amor. O príncipe segue para Kapurthala para os preparativos do casamento. Na longa travessia de navio da França para a Índia Anita descobre que está grávida.

Em 28 de Janeiro de 1908 com a idade de 18 anos Ana Delgado Briones chega a Kapurthala para o casamento em cima de um elefante ricamente adornado e trajado com todo esplendor. A cidade está em festa e a cerimônia é realizada segundo a tradição Sique que batiza a princesa com o nome de Prem Kauer que significa Princesa do Amor (prem = amor, Kauer = princesa) ou Maharani Prem Kaur. Assim começa esta verdadeira história de amor entre uma pobre dançarina espanhola e seu riquíssimo marajá indiano com todos os ingredientes de um conto de fadas. Para o povo de Kapurthala Anita é uma mulher diferente e exótica, mas a aceitam apesar da diferença cultural. Este novo mundo de riqueza e excesso de toda ordem fascinam a jovem que fica magnetizada pela opulência, esbanjamento e festas regada as mais caras bebidas e pratos dos mais diversos sabores. Cercada de jóias e roupas dos mais finos tecidos e paparicada por um exército de criados Anita se sente uma verdadeira rainha. Como não aceita morar com as outras mulheres do Marajá nem ser tratada como mais uma em seu harém vai morar com Singh Jagatji em um palácio ao estilo francês com 108 quartos e um pé direito tão alto que é possível que uma pessoa possa entrar em suas dependência em cima de um elefante.

Durante alguns anos esta vida de opulência e riqueza é desfrutada por Anita com prazer apesar da distância da família e de viver em uma cultura tão diferente da sua. As inúmeras jóias e presentes que ganha do marido a tornam uma mulher cada vez mais confiante e segura de si. Além do Francês e do Inglês que domina com certa desenvoltura aprende também o idioma local o Urdu para se comunicar melhor com seu povo. Com o Marajá realiza inúmeras viagens pela a Europa e aos principados vizinhos onde fascina a todos pela beleza e desenvoltura. Por ser uma mulher independente e de opiniões fortes fica responsável por organizar a festa do casamento do filho primogênito do Marajá com sua primeira esposa Maharani Harbans Kaur. Tudo estava bem em Kapurthela e o casal vivia feliz como dois pombinhos apaixonados.

Infelizmente não foram felizes para sempre como nos contos de fadas. Muitos fatores contribuíram para desgastar aos poucos esta união. Em Primeiro lugar Anita não conhecia seu futuro marido e a cultura da distante Índia com suas castas e milhares de Deuses. Desconhecia os costumes que permitiam ao Marajá ter quantas esposas quisesse e a ter um poder tão avassalador sobre as suas mulheres, criados e súditos. Em segundo lugar a difícil convivência com as outras mulheres do Marajá e seus filhos. O preconceito que sofria por ser uma estrangeira sem condição social de família nobre e ainda por cima não praticante da religião Hindu ou Sique. Em terceiro lugar a dolorosa situação de abandono a que era submetida por não ser aceita nos círculos do poder de uma Índia sob domínio da Inglaterra. A coroa britânica não aceitava esta união e não permitia que Anita fosse admitida em eventos oficiais e também não permitia que ela usufruísse da condição de princesa de Kapurthala. Aliás, nem a consideravam como tal nos círculos oficiais. Sem contar é claro, sua tenra idade, falta de estudos e cultura geral. Estes fatores foram minando a relação do casal deixando Anita cada vez mais vulnerável. Com o tempo foi ficando cada vez mais isolada e sentia-se sozinha apesar do exército de criados que circulavam a sua volta.

Os anos foram passando e com a primeira guerra em curso e o Marajá teve que assumir algumas responsabilidades e ausentava-se cada vez mais do palácio e de sua esposa. Sentindo-se sozinha e sem notícias da família Anita se isola cada vez mais. A relação entre ambos já não é mais a mesma. Agora o filho estuda na Inglaterra e sua única companheira é Dalima a criada confidente e amiga. As intrigas palacianas das esposas e os outros filhos do Marajá contra Anita só aumentam ainda mais seu desconforto e solidão. Karam, filho do Marajá com Rani Kanari é o único com quem compartilha momentos agradáveis. Esta convivência vai tornando-se cada vez mais íntima e perigosa.

Javier Moro realizou pesquisas detalhadas, tanto na Europa quanto na Índia, para construir uma narrativa minuciosa sobre a relação entre o casal, que terminou como um dos maiores escândalos da Índia inglesa. Um painel interessante sobre a vida de homens e mulheres que viveram sob o regime dos Marajás e suas excentricidades. Príncipes que possuíam 350 mulheres e concubinas. Palácios de 5 andares com seus jardins enormes. Descreve em suas páginas salas abarrotadas de diamantes, ouro todos os tamanhos e quilates, rubis, esmeraldas e jóias exuberantes. Conta-nos histórias de Marajás que caçavam tigres e usavam crianças como iscas e outro que possuía 38 criados somente para tirar o pó dos lustres do palácio. E muitas outras histórias destes ilustres senhores donos do mundo e suas regalias e excentricidades. Uma leitura prazerosa e muito ilustrativa da história deste povo tão diferente de nós ocidentais. Com a independência da Índia e o fim dos Marajás só resta agora os contos de fadas infantis. Pena que não foram felizes para sempre…
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