Maldita Morte

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Maldita Morte

Mensagem por Valdeci C. de Souza em Qui Jun 28, 2012 10:11 am

Na primeira página do livro “Maldita Morte”, de Fernando Royuela o leitor já tem uma ideia do que o aguarda nos próximos capítulos. Uma narrativa contundente e visceral que será difícil deixar de ler com a sensação de desconforto e admiração. Explico: Desconforto de sentir na alma a trajetória sofrida do pequeno Gregório (também conhecido como Goyo ou Goyito) e a sua visão cínica, crítica e mordaz da vida. Não pense que ele é um pobre coitado que vive a chorar e lamuriar-se pelos cantos. Nada disso, ele tem consciência da sua deformidade, de sua total falta de inteligência e insignificância para qualquer ser humano. E ele tira proveito disso (quando pode, claro). Admiração pela forma como Royuela faz esta crítica ferrenha a sociedade espanhola sem ser professoral ou maniqueísta. Não só uma crítica a sociedade espanhola, mas a toda uma sociedade individualista, mesquinha onde o importante é ter (muito dinheiro) e poder (político e intelectual). Afinal, ele não levanta bandeiras a favor das minorias (anões no caso), a favor (ou contra) trabalhadores e patrões, ricos ou pobres. Ele simplesmente conta sua história de forma brilhante e o leitor que tire suas conclusões. Vejamos o que o autor escreve já na primeira página deste fantástico livro:

“Ao longo da minha vida conheci uma infinidade de filhos da puta e a nenhum desejei uma morte ruim. Com você não vou fazer uma exceção. O ser humano perdura pelo mundo sem se dar conta da tragédia que o aguarda. Uns inventam deuses para remediar a angústia, outros, ao contrário, atendem ao imediatismo do prazer para afugentar o inevitável, mas todos no final são medidos pela rigorosa igualdade da extinção. Eu já estava advertido do fim, mas jamais pensei que fosse acontecer dessa maneira.
Sei a que veio, mas não importa. Nunca até agora tinha me enfrentado com a certeza de deixar de existir, e por isso sua presença, antes de me atemorizar, deprecia-me. Agora compreendo que minha existência tenha estado encaminhada desde o princípio para nosso encontro; que meus passos estivessem condenados até este instante, que não me fosse possível escapar ao meu destino por mais que pretendesse absurdamente, que ninguém, nem sequer os entes queridos, jamais irão chorar minha perda. Sei que você veio para se regozijar com o espetáculo de minha morte, constatei-o na ferrugem dos seus olhos, no limo de sua curiosidade, mas já não temo a inexistência.”

Que tal, não dá vontade de seguir lendo até a última página de um fôlego só? Pois é… Esta filosofia de vida existencialista me pegou em cheio e foi difícil parar de ler. Infelizmente (ou felizmente) a leitura não foi de fácil entendimento e, por vezes, era preciso dar uma parada para refletir e “sentir” realmente o que se passava na vida deste anão que tinha mais de “filho da puta” de que vítima do sistema. Claro que ele sofreu poucas e boas na sua curta existência, mas teve igualmente bons momentos que o destino assim determinou. Ele pouco ou nada fez para merecer tanto sofrimento ou alegrias na vida. Foi vivendo como vivem quase todas as pessoas neste mundo (pessoas sem poder ou importância, claro porque as outras fazem seu próprio destino. Ou pensam que fazem…). O cinismo era sua arma, a observação da vida alheia seu passatempo, a mendicância e sua deformidade (na sua própria ótica) seu sustento.

Gregório conta sua história a partir do seu nascimento em um povoado miserável no interior da Espanha após a guerra civil e chega ao começo dos anos 1970. Pai não conheceu, a mãe se entregava a qualquer um como uma Geni da vida (Chico Buarque que me perdoe roubar-lhe a personagem) e pouco ou nenhum amor lhe transmitiu. Jovem ainda foi vendido para um circo mambembe de quinta para ser atração exótica por sua feiúra e por ser um anão deformado (como se uma desgraça só não bastasse). Aliás, a descrição que ele faz de si mesmo é impressionante… Sim, tudo é narrado na primeira pessoa, o que torna a história mais chocante ainda. Comeu o pão que o diabo amassou durante muitos anos sendo o bobo da corte e a figura exótica do picadeiro. Nem foi pão muito que comeu assim não, porque a fome sempre foi maior e a miséria maior ainda. Comeu mesmo foi muito ovo para peidar em alto e bom som (e exalar muito mau cheiro ainda) na hora do espetáculo para arrancar gargalhadas e aplausos da plateia. Com a decadência cada vez maior do circo e outras circunstâncias acabou sozinho em Madrid.

Em Madrid, Capital da Espanha acabou virando capacho e escravo de outro infeliz que explorava mais ainda outros moradores de rua para que estes o sustentassem. Com a revolução civil em curso e conflitos em cada esquina perambular pelas ruas até que trouxe algumas vantagens e surrupiar carteiras era uma moleza e assim saciar a fome. Gregório foi informante, espião, guri de recados, proxeneta e escravo de uma velha decrépita por longos anos em uma Madrid em conflito antes que a sorte o alcançasse e sua vida de rico e poderoso fosse enfim um sonho realizado. Calma lá, meu caro leitor. Não vá tirando conclusões apressadas de que o coitadinho ficou rico e viveu feliz para sempre como os personagens das novelas brasileiras. Até porque, quando a história começa Gregório já é rico e poderoso e está justamente contando sua vida miserável e sofrida antes da fortuna. E demais a mais, todos nós sabemos que ele morre sozinho no final, sem ter tido alguém que o amasse verdadeiramente. E nem estou contando o final do livro para tirar o prazer de quem não o leu ainda. Até porque, não é o final da história que conta (que já está narrado na primeira página), mas o desenrolar da existência de Gregório até o derradeiro suspiro. O que fica mesmo na memória do leitor são os sofrimentos e a miséria (do corpo e da alma). Das festas do anão deformado e de sua vida de rei pouco ficamos sabendo. O que importa aqui é mostrar a condição humana e isto que é interessante no livro.

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Valdeci C. de Souza

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