Pão e Tulipas

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Pão e Tulipas

Mensagem por Valdeci C. de Souza em Dom Jul 01, 2012 9:45 am



Imagine a situação: Você e sua família saem de férias para curtirem
momentos de alegria, diversão e coisa e tal. De repente você se encontra
abandonado (ou abandonada) num restaurante a beira da estrada. E o pior
de tudo: Ninguém parece sentir a sua falta por um bom tempo… Nem esposa
(ou marido) e filhos notam a sua ausência! E agora, o que fazer? No
primeiro impulso provavelmente você irá procurar um meio de entrar em
contato com eles para que venham resgatá-lo do esquecimento, certo? Com
os minutos de espera você ficará com a pulga atrás da orelha a pensar
como isso foi possível e porque ninguém notou (ou se importou) com a sua
ausência. Neste momento de angústia meu amigo, você estará entrando
numa seara muito perigosa e será preciso anos de terapia para sentir-se
novamente amado, importante na vida dos seus familiares e coisa e tal.
Ou não!
Eu entraria em pane. Não por ter sido esquecido na beira da estrada,
mas o fato de sentir na própria pele o fato de saber que minha mulher e
meu filho não se importam comigo e por não terem sentiram minha
ausência. Sinal evidente que não sou importante para eles ou que o amor
foi pro beleléu (no que se refere a minha mulher) ou pela indiferença do
meu filho. Em ambos os casos estaria, irremediavelmente, perdido.

Felizmente isso nunca aconteceu comigo e espero nunca venha a ocorrer.
Mas foi o que aconteceu com Rosalba personagem do filme Pão e Tulipas
uma co-produção da Itália e Suíça, dirigido por Silvio Soldini.
Acontece que Rosalba (Licia Maglietta), apesar de ter ficado indignada
no primeiro momento, resolveu tirar de letra a situação e aproveitou a
situação para tirar, ela própria, férias da família. A situação entre
ela e o marido já não era das melhores. O relacionamento já andava pra
lá de monótono e, com os filhos crescidos e sem a necessidade de muitos
cuidados, Rosalba estava se sentindo rejeitada e deixada de lado nas
preocupações de todos. Sua rotina era ser uma boa dona de casa. Mais
precisamente uma empregada doméstica da própria família. O marido tinha
sua amante para seus encontros amoroso-sexuais. Os filhos, como sempre
acontece depois que crescem, possuem outros interesses… Assim, sem
pensar duas vezes Rosalba aproveita a oportunidade que o destino lhe
apresenta e cai na estrada a procurar sua felicidade perdida. Segue
então para conhecer Veneza. Mas ela quer muito mais que conhecer uma
cidade turística. Ela quer viver como se fosse uma autêntica moradora da
cidade e conhecer os lugares que não estão nos cartões postais.

A partir deste momento começa uma nova aventura na vida desta mulher.
Muito mais que a transformação da própria existência nesta jornada, ela
vai modificando também os destinos das pessoas com quem vai se
relacionando. Como está sem dinheiro é acolhida por um garçom solitário
que não está lá de bem com a vida e anda com sentimentos suicidas e
coisa e tal. Assim, ele pensa lá com seus botões que não custa nada
esperar mais um pouco e dar outra chance para a vida e ver o que
acontece. No mesmo prédio reside uma massagista que não tem sorte no
amor e suas relações sempre foram de sofrimento e desilusão. Este trio
forma o centro da narrativa e as histórias paralelas vão se desenrolando
de forma sensível e até engraçadas em alguns momentos. Principalmente
quando entra em cena o florista anarquista que dá emprega a Rosalba e o
“detetive” de araque que o marido de Rosalba contrata para encontrá-la
em Veneza.

O filme cativa pela simplicidade dos personagens. Quando digo
simplicidade não estou criticando o roteiro e os diálogos. Muito menos a
constituição psicológica dos mesmos. Nada disso. Digo isso porque é
fácil identificar estas pessoas com alguém que você talvez conheça na
sua vizinhança ou que já tenha escutado histórias de vida como estas por
pessoas que tenham cruzado seu caminho. Os cenários ajudam a criar este
ambiente descompromissado e verdadeiro que nem parecem sets de
filmagem. O mesmo se pode dizer dos figurinos. Exagerados e caricatos.
Mas quem possui apartamento capa de revista se veste como modelos de
passarelas?


Ao término do filme percebe-se que Rosalba estava procurando
significado para sua vida e um motivo para vivê-la plenamente. A
metáfora com o título é evidente: É preciso muito mais que pão
(representado neste caso por segurança financeira, um teto sobre a
cabeça, roupas no corpo e comida no prato). Rosalba foi ao encontro das
suas tulipas (representado metaforicamente por carinho, respeito, e,
acima de tudo, amor). Com “Pão” e “Tulipas” é possível viver feliz e
fazer valer esta existência. A cena em que o garçom assiste, desolado,
suas tulipas murcharem e se despetalarem é bem significativa. É preciso
merecê-las (ou conquistá-las) e estar preparado para tê-las. Todos nós
temos direito a pão e tulipas. Afinal, como já vimos numa frase famosa
“nem só de pão vive o homem”.
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Valdeci C. de Souza

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